As heranças culturais no Brasil são o que mais me surpreende quando viajo pelo país. Sempre que alguém me pergunta o que mais me marca numa viagem, minha resposta raramente é uma paisagem.
É descobrir que, em algum canto pequeno do mapa, um pedaço de história de outro continente sobreviveu quase intacto. Ele fica escondido em detalhes do cotidiano de gente que nem se dá conta de como aquilo é raro.
Foi exatamente essa sensação que tive em Mazagão Velho, Prudentópolis e Oriximiná. São três cidades que carregam heranças que eu jamais esperaria encontrar naqueles pontos do país.
Neste artigo
Antes de ir: o que nenhuma pesquisa prepara
Fui até essas cidades sem saber muito bem o que esperar, além do que tinha lido antes de arrumar a mala.
Nenhuma pesquisa prepara completamente para ver, ao vivo, tradições de lugares tão distantes sobrevivendo com tanta naturalidade. E em pontos do Brasil que, à primeira vista, não têm relação nenhuma com essas origens.
A herança de Mazagão Velho vem do norte da África e a de Prudentópolis vem da Ucrânia. A de Oriximiná nasceu dos rios da Amazônia, com quilombos formados há cerca de dois séculos.
Como chegar às três cidades
As três ficam em regiões muito diferentes do país. Por isso, a viagem completa combina avião, estrada e barco.
Mazagão Velho (AP)
A porta de entrada é o aeroporto de Macapá. Dali, segue-se de carro pela rodovia AP-010, passando por Santana e pela sede do município de Mazagão.
Da sede até a vila de Mazagão Velho são cerca de 27 km de estrada asfaltada. Moradores também fazem a travessia de barco entre Mazagão, Santana e Macapá.
Prudentópolis (PR)
A cidade fica a cerca de 200 km de Curitiba. De carro, o caminho é pela BR-277 até Ponta Grossa e depois pela BR-373, num trajeto de umas 3 horas.
Também há ônibus a partir de Curitiba, com viagem de aproximadamente 4 horas.
Oriximiná (PA)
A base é Santarém, que recebe voos de várias capitais. De lá, a forma mais rápida de seguir é a lancha, com cerca de 4 horas de viagem pelo rio Amazonas e pelo Trombetas.
Há também ferries noturnos, com camarotes, que saem de Santarém no início da noite e chegam a Oriximiná de manhã cedo, com escala em Óbidos. A Azul Conecta opera voos regionais ligando Oriximiná a Santarém, com parada em Monte Alegre, em alguns dias da semana.
Onde ficar
- Mazagão Velho: a vila tem pouquíssima estrutura de hospedagem. O mais prático é ficar em Macapá ou Santana e ir à vila de carro. Na Festa de São Tiago, a cidade lota, então reserve com bastante antecedência.
- Prudentópolis: há hotéis no centro, como o Mayná Palace Hotel e o Elite Palace Hotel, com diárias de valor acessível. Para quem quer conforto e natureza, o Ózera Hotel Fazenda é a opção mais cara da região.
- Oriximiná: a cidade tem hotéis e pousadas simples, perto da orla. Como recebe muitos trabalhadores ligados à mineração no Trombetas, vale reservar antes de embarcar.
Em todas as três, confirme preços e disponibilidade direto com a hospedagem. Em cidades pequenas, o WhatsApp costuma funcionar melhor do que os sites de reserva.
Roteiro de 7 dias por três heranças culturais no Brasil
Dia 1 — Chegada a Mazagão Velho
Cheguei em Mazagão Velho já sabendo, ao menos no papel, a história por trás do nome. Em 1769, Portugal abandonou sua fortaleza de Mazagão, no atual Marrocos, e transferiu as famílias que viviam lá para a Amazônia.
Ainda assim, nada me preparou para ver isso na prática, no meio da floresta amapaense, tão longe da origem dessa história.
Dia 2 — Um ensaio numa tarde comum
A comunidade preserva festas religiosas e encenações históricas até hoje. O destaque é a Festa de São Tiago, que acontece entre 16 e 28 de julho e reproduz a batalha entre mouros e cristãos.
O cuidado impressiona, dos figurinos aos versos declamados de memória por moradores de todas as idades.
Assisti a um ensaio numa tarde comum de semana, fora do período da festa oficial. Mesmo assim, havia um empenho genuíno de crianças e adultos aprendendo juntos os passos e as falas que se repetem há gerações.
Conversei com um senhor que participava da encenação desde criança. Ele me disse que aprendeu tudo vendo o pai e o avô fazerem antes dele.
Não existia roteiro escrito guardado em gaveta. Existia memória viva, passada de corpo para corpo.
Perguntei se ele já tinha pensado em anotar tudo. Ele riu e disse que a graça estava justamente em continuar sendo ensinado do jeito antigo, olho no olho.
Dia 3 — De um extremo ao outro do país
Saí do Amapá rumo ao Paraná, com conexão até Curitiba e depois estrada até Prudentópolis. Foi um dia inteiro de deslocamento, atravessando o Brasil de norte a sul.
Dia 4 — A Ucrânia que poucos sabem que existe no Paraná
Prudentópolis concentra uma das maiores heranças ucranianas do Brasil. Os primeiros imigrantes chegaram em 1896, e boa parte da população ainda tem essa ascendência.
A herança aparece em quase tudo. Está nas igrejas de cúpulas características, em estilo bizantino, que pontuam a paisagem rural — são mais de cem no município. Aparece também nas danças folclóricas e nas festas religiosas.
Entrei numa dessas igrejas durante uma celebração e fiquei impressionada com a acústica dos cânticos. Eram cantados em ucraniano por uma comunidade que, em boa parte, nunca pisou na Ucrânia.
Dia 5 — Pierogi com receita de avó
Numa casa de família, provei comida preparada com receitas que atravessaram gerações sem mudar no essencial. Teve pierogi e borscht, feitos como em qualquer casa ucraniana tradicional.
A senhora que cozinhava me contou que aprendeu a fazer pierogi com a avó. A avó, por sua vez, tinha aprendido ainda na Ucrânia, antes de embarcar para o Brasil no início do século passado.
Ela falava um português de sotaque suave, mas trocava para o ucraniano sem perceber sempre que se emocionava. Eu deixava a conversa seguir, mesmo sem entender cada palavra.
Dica: se tiver mais um dia, Prudentópolis também é conhecida como a “terra das cachoeiras gigantes”. O Salto São Francisco tem cerca de 196 metros de queda.
Dia 6 — Rumo a Oriximiná
Do Paraná, voei até Santarém e segui de barco até Oriximiná, no Pará. O último trecho já foi um aviso do que vinha: ali, o rio dita o ritmo de tudo.
Dia 7 — O ritmo do rio
Em Oriximiná, a herança que encontrei não veio de um único ponto de origem. Ela nasce da combinação entre comunidades ribeirinhas e quilombolas, com um modo de vida profundamente ligado aos rios e à floresta.
Os quilombos da região foram formados por pessoas escravizadas que fugiram das fazendas do Baixo Amazonas e subiram o rio Trombetas. Hoje são dezenas de comunidades, e foram as primeiras do Brasil a conquistar o título coletivo de suas terras.
A pesca artesanal ainda organiza boa parte da rotina local. O mesmo vale para a produção comunitária de alimentos e o conhecimento sobre plantas e ciclos naturais, transmitido oralmente.
Passei uma manhã acompanhando pescadores e entendi rápido que aquilo não era só trabalho. Era um conjunto de saberes sobre o comportamento do rio, os melhores horários e os sinais que indicam onde o peixe está.
Um dos pescadores, ao perceber meu interesse, começou a explicar cada gesto. Parecia um professor satisfeito por ter uma aluna prestando atenção de verdade.
Fiquei entre redes e canoas, ouvindo como aquele conhecimento sobreviveu a décadas de mudanças. Ele continua vivo porque continua útil, não porque virou peça de museu.
Antes de eu ir embora, ele insistiu em me ensinar a diferença entre dois nós de rede que, para mim, pareciam idênticos. Só na terceira tentativa entendi onde eu estava errando.
Para visitar as comunidades quilombolas, procure a associação local de quilombos, a ARQMO, e combine a visita com antecedência. Não chegue sem convite.
Leia também: Cantos da Amazônia: 3 lugares que poucos veem em 9 dias — outro roteiro pelo Norte, onde o rio também é a rua.
Quanto custa: tabela de valores
Os valores abaixo são referências recentes e mudam conforme a época. Use como ponto de partida, não como orçamento fechado.
| Item | Valor aproximado |
|---|---|
| Lancha Santarém → Oriximiná | cerca de R$ 130 (4 horas) |
| Camarote no ferry Santarém → Oriximiná | R$ 150 a R$ 310 por cabine |
| Hotel em Prudentópolis | a partir de cerca de R$ 130 a diária; hotel-fazenda acima de R$ 850 |
| Entrada nas cachoeiras de Prudentópolis | gratuita a R$ 20, conforme a cachoeira |
| Alimentação por dia | R$ 70 a R$ 150 por pessoa |
O maior gasto é o transporte aéreo. Ir do Amapá ao Paraná e depois ao Pará exige conexões, então compre as passagens com antecedência.
O que essas três cidades têm em comum
Mazagão Velho, Prudentópolis e Oriximiná não compartilham origem, língua ou geografia.
O que as une é que cada uma preserva sua herança não como espetáculo turístico, mas como parte viva do cotidiano. As pessoas fazem aquilo porque faz sentido para elas, não porque alguém de fora está olhando.
Se você também se interessa por esse tipo de viagem, um conselho que valeu muito para mim: vá em datas comuns, fora das grandes festividades.
Foi justamente nos dias “normais” que vi essas tradições na forma mais genuína. Sem palco montado, sem plateia esperando, só gente vivendo a própria história do jeito que sempre viveu.
Voltei pensando em quantas outras heranças parecidas ainda existem espalhadas pelo Brasil, esperando alguém disposto a procurar com calma. Esta viagem entrou para a minha lista de destinos remotos favoritos.
E fiquei pensando em como cada uma delas só continua viva porque tem gente comum, sem holofote nenhum, decidindo todos os dias que vale a pena manter aquilo por mais uma geração.
Informações práticas
- Mazagão Velho (AP): voo até Macapá e estrada pela AP-010, via Santana. Festa de São Tiago de 16 a 28 de julho.
- Prudentópolis (PR): cerca de 200 km de Curitiba, umas 3 horas de carro pela BR-277 e BR-373, ou 4 horas de ônibus.
- Oriximiná (PA): voo até Santarém e lancha de cerca de 4 horas, ferry noturno ou voo regional.
- Comunidades quilombolas: visitas só combinadas com antecedência, com a associação local.
- Quando ir: em datas comuns para ver o cotidiano; em julho, se quiser a Festa de São Tiago.
Horários, rotas e preços mudam com frequência — confirme sempre com as empresas, hospedagens e prefeituras antes de viajar.





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