Algumas cidades pequenas do Brasil guardam histórias que não cabem no tamanho delas. Tem destino que eu escolho pela paisagem e destino que eu escolho pela história. Itarema, São Raimundo Nonato e Mostardas entraram no meu roteiro pelo segundo motivo — e nenhuma das três me decepcionou.
Uma fica no litoral oeste do Ceará, a caminho de Jericoacoara. Outra está no sertão do Piauí, cercada pelas pinturas rupestres mais famosas das Américas. A terceira fica no litoral gaúcho, entre o mar e a Lagoa dos Patos.
Em cada uma encontrei o mesmo fio condutor: gente comum guardando, sem alarde, algo genuinamente extraordinário.
Neste artigo
Quais são as 3 cidades pequenas do Brasil deste roteiro
Itarema (CE) é uma cidade de pescadores a cerca de 214 km de Fortaleza. No distrito de Almofala vive o povo indígena Tremembé, e lá está a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, do início do século 18. Em 1897, as dunas cobriram a igreja inteira. Ela só voltou a aparecer por completo em 1943 e hoje é tombada pelo Iphan.
São Raimundo Nonato (PI) é a porta de entrada do Parque Nacional Serra da Capivara, Patrimônio Mundial da Unesco. São mais de 1.300 sítios arqueológicos, cerca de 600 deles com pinturas rupestres.
Mostardas (RS) foi fundada em 1773 por famílias vindas da ilha do Pico, nos Açores. O centro guarda casario açoriano do século 18 e a Igreja Matriz São Luiz Rei, uma das mais antigas do Rio Grande do Sul. A cidade também dá acesso ao Parque Nacional da Lagoa do Peixe, parada de aves que viajam entre o Hemisfério Norte e o extremo sul do continente.
Como chegar
Itarema e Jericoacoara
Voe até Fortaleza e siga de carro pela CE-085, passando por Paraipaba. São cerca de 214 km, sem pedágio. Outra opção é voar direto para o Aeroporto de Jericoacoara, em Cruz, que fica entre Itarema e Jeri.
De Itarema a Jericoacoara são pouco mais de 100 km, passando por Acaraú, Cruz e Jijoca. O último trecho, de Jijoca até a vila, é de areia e só se faz em veículo 4×4 ou de transfer.
São Raimundo Nonato
O aeroporto da cidade não tem voos comerciais regulares. O caminho é voar até Petrolina (PE) e seguir cerca de 300 km de carro, por estrada asfaltada via Casa Nova e Remanso. Alugue carro: não há transporte público até os sítios do parque.
Mostardas
Voe até Porto Alegre e siga pela RS-040 até Capivari do Sul, depois pela BR-101 sentido sul. São cerca de 200 km asfaltados, em umas 3h30. Não há ônibus direto, e para as estradas de areia das praias um carro alto ou 4×4 ajuda bastante.
Onde ficar
- Itarema: a Ilha do Guajiru, na Praia da Barra, concentra as melhores pousadas, muitas voltadas ao kitesurf. Há opções simples, como o Nomade Kite Camp, e outras mais charmosas, como a Locanda dei Venti e a Pousada Kiriri, pé na areia.
- Jericoacoara: fique dentro da vila, perto da Rua Principal, para fazer tudo a pé e sair cedo para os passeios.
- São Raimundo Nonato: o Hotel Real fica perto do centro e é a opção mais confortável. Em Coronel José Dias, colado ao parque, o Albergue Serra da Capivara tem quartos privativos. As diárias de casal ficam, em geral, entre R$ 150 e R$ 200.
- Mostardas: a Pousada Parque fica na cidade. Em Bacupari, perto da lagoa de mesmo nome, a Pousada Recanto da Teimosa tem chalés.
Reserve antes e confirme por WhatsApp. Em cidades pequenas, os sites de reserva nem sempre mostram tudo.
Roteiro de 11 dias pelas cidades pequenas do Brasil
Dia 1 — Porto dos Barcos e pôr do sol na Ilha do Guajiru
Cheguei a Itarema no começo da tarde e fui direto ao Porto dos Barcos, uma comunidade de pescadores a 7 km do centro. As canoas coloridas encostadas na areia já valem a parada.
Fiquei até o fim da tarde vendo os barcos voltarem, um a um. Cada pescador era recebido por alguém da família que já esperava na areia. Uma cena sem nenhuma pretensão de ser bonita, e que foi uma das mais bonitas da viagem.
À noite, fui ver o pôr do sol na Ilha do Guajiru, na Praia da Barra, com o céu cheio de velas de kitesurf. Jantei peixe numa das barracas da orla.
Dia 2 — Jangada em Almofala, a igreja das dunas e o rio de Torrões
Saí cedo para Almofala, a 12 km do centro, onde os pescadores artesanais ainda saem de jangada. Um deles me deixou acompanhar a saída, e vi o sol nascer sobre o mar.
Entre uma rede e outra, ele contou que aprendeu tudo com o pai, ainda criança. Na volta, os colegas riram de mim tentando ajudar a puxar a rede sem saber direito o que fazia.
Depois, visitei a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a que passou quase meio século debaixo da areia. Em Almofala também fica o centro de visitantes do Projeto Tamar, e o mar ali é área de alimentação de tartarugas-verdes.
À tarde, segui 4 km até a Praia de Torrões. Atravessei o Rio Aracati-Mirim numa canoa pequena de moradores e fiquei olhando o rio encontrar o mar, com água de coco na mão. Torrões é conhecida pela pesca da lagosta, então o almoço já estava decidido.
Dia 3 — Caiaque no mangue e estrada até Jericoacoara
Pela manhã, fiz um passeio de caiaque pelo mangue de Itarema, entre raízes e garças. Depois do almoço, peguei a estrada para Jericoacoara, a pouco mais de 100 km.
Cheguei a tempo de subir a Duna do Pôr do Sol, o ritual de toda tarde na vila.
Dia 4 — Buggy privativo pela costa oeste de Jericoacoara
Contratei um buggy privativo para o lado oeste de Jeri, rumo a Tatajuba. O primeiro trecho segue pela Praia do Mangue Seco até Guriú, onde o buggy atravessa o rio numa balsa de madeira empurrada pelos balseiros.
No Santuário dos Cavalos-Marinhos, entrei num barco rústico pelo manguezal e vi os bichinhos de perto, nas mãos do guia. Depois vieram o Cemitério das Árvores Secas, com raízes expostas na areia, e as dunas móveis de Tatajuba.
O passeio terminou na Lagoa de Tatajuba, com almoço numa barraca de palha pé na areia. Foram cerca de 6 horas de passeio, e cada parada parecia outro lugar.
Dia 5 — Do litoral cearense ao sertão do Piauí
Voei até Petrolina e segui de carro até São Raimundo Nonato. Foi um dia de deslocamento, mas a caatinga pela janela já anunciava que eu estava entrando em outro tempo.
Dia 6 — Pedra Furada, Sítio do Meio e as andorinhas
Entrei no parque pelo Circuito do Baixão da Pedra Furada, com um guia local que estudava a região havia anos. Ele falava das pinturas com um entusiasmo contagiante, quase como se estivesse apresentando parentes distantes.
Começamos pelo Sítio do Meio, onde foi encontrada a cerâmica mais antiga das Américas. Depois, a Toca do Boqueirão da Pedra Furada, com cerca de mil pinturas rupestres numa única parede.
Diante de uma delas, o guia comentou, meio brincando, que “a gente é só um capítulo recente dessa história”. Carreguei essa frase pelo resto da viagem.
No fim da tarde, fomos ao Baixão das Andorinhas ver milhares de aves voltarem para dentro do paredão. À noite, voltei para ver a Pedra Furada iluminada.
Dia 7 — Caldeirão dos Rodrigues, Desfiladeiro da Capivara e o Museu do Homem Americano
Subi as escadarias de pedra até o Caldeirão dos Rodrigues, no alto do chapadão, com vista para os paredões avermelhados. Depois, percorri o Desfiladeiro da Capivara e a Toca do Pajaú.
A paisagem impressiona: vegetação seca da caatinga e um silêncio só quebrado pelo vento.
À tarde, visitei o Museu do Homem Americano, no centro da cidade, com peças das escavações. Perguntei ao guia se ele não se cansava de repetir as mesmas explicações. Ele riu e disse que cada visitante reage de um jeito diferente, e é isso que mantém a rotina interessante.
Dia 8 — Museu da Natureza e Cerâmica Serra da Capivara
Fui ao Museu da Natureza, em Coronel José Dias, que conta a história do clima e da vida na região. Almocei na Cerâmica Serra da Capivara, onde artesãs locais pintam peças com os desenhos rupestres. Comprei ali minhas lembranças e voltei para Petrolina no fim da tarde.
Dia 9 — Mostardas e o casario açoriano
Voei até Porto Alegre e segui para Mostardas. No fim da tarde, caminhei pelo centro histórico, com casas de influência açoriana do século 18.
Nas fachadas, aparecem símbolos como a Pomba do Divino Espírito Santo. A Igreja Matriz São Luiz Rei, de 1773, fecha o passeio.
Dia 10 — Lagoa do Peixe e a Praia do Farol da Solidão
Passei a manhã no Parque Nacional da Lagoa do Peixe com binóculo emprestado, ao lado de um observador de aves local. Ele reconhecia cada espécie só pelo formato do voo, antes mesmo de eu conseguir focar.
Ele explicou que muitas dessas aves passam por ali todo ano, na mesma época, seguindo uma rota que se repete há gerações. Uma fidelidade geográfica que me pareceu quase poética.
À tarde, fui até a Praia do Farol da Solidão, onde um farol de quase oito décadas vigia uma faixa de areia sem fim. Caminhei pela praia deserta vendo o sol baixar sobre dunas e lagoas, sem outro barulho além do vento e dos pássaros.
Dia 11 — Praia de São Simão, Farol Cristóvão Pereira e a Lagoa do Bacupari
Comecei o dia na Praia de São Simão, que lota no verão e fica quase vazia no resto do ano. Depois, segui até o Farol Cristóvão Pereira, de 1861, na margem da Lagoa dos Patos.
No caminho, o observador de aves me mostrou fotos do mesmo trecho de praia em épocas diferentes. Segundo ele, quase idêntico, ano após ano — um tipo raro e tranquilizador de constância.
Fechei a viagem pedalando até a Lagoa do Bacupari para ver o último pôr do sol.
Leia também: Heranças culturais no Brasil: Mazagão Velho, Prudentópolis e Oriximiná — mais três cidades pequenas que guardam histórias inesperadas.
Dicas de cada lugar
Itarema
- As jangadas saem de madrugada. Combine com os pescadores no dia anterior e respeite a rotina deles.
- De julho a janeiro, o vento forte transforma a Ilha do Guajiru num dos melhores pontos de kitesurf do Ceará.
- Em Almofala, procure conhecer a cultura Tremembé, como o torém, a dança tradicional do povo.
Jericoacoara
- Pague a Taxa de Turismo Sustentável antes, pelo site da prefeitura de Jijoca, para evitar filas.
- No buggy, leve dinheiro para a balsa e o passeio dos cavalos-marinhos, cobrados à parte.
- Se não quiser parar em beach clubs, avise o buggueiro no início do passeio.
São Raimundo Nonato
- A entrada no parque é gratuita, mas o guia credenciado é obrigatório. Reserve antes.
- Vá entre maio e novembro, na época seca. Na chuva, algumas estradas de terra do parque ficam difíceis.
- A bilheteria fecha às 17h e o parque às 18h. Programe as andorinhas para o fim da tarde.
Mostardas
- Os maçaricos do Hemisfério Norte aparecem, em geral, entre setembro e abril. Os flamingos-chilenos ficam mais fáceis de ver no inverno.
- O Festival Brasileiro de Aves Migratórias costuma acontecer em outubro ou novembro.
- Leve corta-vento e baixe mapas offline: em boa parte da região não há sinal de celular.
- Dirija devagar na praia e nas estradas do parque para não assustar as aves.
Quanto custa: tabela de valores
Os valores são referências recentes e mudam conforme a época. Use como ponto de partida.
| Item | Valor aproximado |
|---|---|
| Caiaque ou SUP no mangue de Itarema | a partir de R$ 100 |
| Buggy privativo, lado oeste de Jeri (até 4 pessoas) | cerca de R$ 450 por buggy |
| Balsa de Guriú (ida e volta) | R$ 40 a R$ 50 por buggy |
| Passeio dos cavalos-marinhos | R$ 20 a R$ 25 por pessoa |
| Taxa de Turismo de Jericoacoara | cerca de R$ 41,50 por pessoa (até 10 dias) |
| Guia na Serra da Capivara | cerca de R$ 150 por dia (grupo de até 8) |
| Museu do Homem Americano / Museu da Natureza | cerca de R$ 15 / R$ 30 |
| Hospedagem em São Raimundo Nonato | R$ 150 a R$ 200 a diária de casal |
O maior gasto é o transporte aéreo: o roteiro cruza o país de norte a sul. Compre as passagens com antecedência.
O que essas três cidades têm em comum
Itarema, São Raimundo Nonato e Mostardas não compartilham geografia, clima ou paisagem.
O que as conecta é que cada uma guarda algo grande demais para o próprio tamanho: uma tradição pesqueira viva, um passado humano milenar e uma rota de aves que cruza continentes.
Se você gosta desse tipo de viagem, não vá com pressa. Foi conversando com o jangadeiro, com o guia e com o observador de aves, muito mais do que lendo placas, que entendi cada lugar.
Voltei pensando em quantas outras cidades pequenas do Brasil ainda guardam histórias assim, esperando alguém disposto a parar e prestar atenção. Esta viagem entrou para a minha lista de destinos remotos favoritos.
Informações práticas
- Itarema (CE): cerca de 214 km de Fortaleza pela CE-085. Jericoacoara fica a pouco mais de 100 km.
- São Raimundo Nonato (PI): voo até Petrolina e cerca de 300 km de carro. Guia obrigatório. Melhor época: maio a novembro.
- Mostardas (RS): cerca de 200 km de Porto Alegre, umas 3h30 de carro. Pouco sinal de celular.
- Transporte: carro alugado nas três regiões.
- Tempo ideal: 11 dias, contando os deslocamentos.
Horários, rotas e preços mudam com frequência — confirme sempre com as hospedagens, os guias e os parques antes de viajar.





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